China crescendo menos: uma nova realidade

Neste artigo, André Sacconato explica os motivos do crescimento de dois dígitos da economia chinesa ser uma realidade do passado.

China crescendo menos: uma nova realidade

O governo chinês fixou como meta para 2022 um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 5,5%. O número já causa estranheza, pois estamos acostumados ao desempenho de dois dígitos da economia do gigante asiático. 

Após uma expansão de 8,1% em 2020, mesmo em meio à pandemia, o governo delimitou uma meta mais próxima do período pré-coronavírus, dado que o país cresceu 5,9% em 2019.

A partir daí, o cenário tem ficado cada mês mais nebuloso para a China. Lockdowns extremos, decisões políticas equivocadas na invasão da Ucrânia pela Rússia, piora nos termos de troca internacionais (venda de industrializados e compra de commodities) e políticas estatizantes – a fim de garantir a common prosperity do primeiro-ministro Xi Jinping – criaram o que chamamos de “tempestade perfeita” na economia daquele País.

Assim, Daniel Rosen mostra em um artigo da revista Foreign Affairs (“The Age of Slow Growth in China”, de 15 de abril de 2022): se decompusermos o PIB em componentes clássicos da demanda, podemos chegar à conclusão que atingir o crescimento de 5,5% neste ano é virtualmente impossível. Mais: as marcas dos erros e do “azar” chinês em 2022 podem deixar feridas que comprometerão o desenvolvimento futuro. 

Como sabemos, o PIB, em termos de demanda, é dividido entre consumo (governo e famílias), investimento e exportações líquidas. Assim, a composição dos 5,5% (meta imposta pelo governo de Jinping), próximo ao índice de 2019, deve originar destes três componentes. 

Considerando que o PIB chinês esteja próximo a US$ 17 trilhões, o crescimento proposto deve adicionar quase US$ 1 trilhão só em 2022.

Também sabemos que praticamente 50% do investimento na economia chinesa vêm do real estate

Além disso, o governo promoveu o que chama de three red lines, limitando muito a alavancagem do sistema imobiliário e o nível de dívidas empresariais. E após ser conivente com um progresso exagerado do setor, que lhe era interessante na composição geral, agora, esse mesmo governo quer cortar tudo de uma vez. 

Nesta conjuntura, mediante os grandes entraves a empresas de tecnologia e educação, que investiam muito, há a impossibilidade de novas aberturas de capital fora da China, limitando o setor mais dinâmico da economia.

No caso do consumo, as restrições ao setor privado suprimiram demais o mercado de trabalho. 

O índice de desemprego, que já bateu 5,1%, hoje está em 5,8%. 

Outro fator importante: em abril de 2022, ainda temos mais de 100 milhões de pessoas em lockdown, em decorrência da variante ômicron da covid-19. E, como se não bastasse, a venda de terras, uma das maiores fontes de renda dos governos locais, arrefeceu após a crise imobiliária, diminuindo muito os proventos da população, que tem cerca de 80% de sua poupança ligados ao setor.

Por isso, os consumos privado e público não devem servir de esteio para grandes avanços.

Em relação às exportações líquidas, a guerra na Ucrânia causou um efeito devastador sobre os termos de troca da economia chinesa, que vende produtos industrializados e compra commodities. Assim, os ganhos expressivos do setor externo vistos em 2019 não devem se repetir.

Deste modo, concluímos que, para a economia chinesa, crescer a dois dígitos é uma realidade do passado. Os erros políticos de Xi Jinping e a situação externa mais hostil, com guerras, inflação e juros mais altos, devem impactar drasticamente o potencial de crescimento da China. 

Isso trará consequências para o mundo todo, inclusive para o Brasil, que vende commodities para o gigante asiático. 

Toda a cena política dos países ocidentais deve levar isso em consideração. A China, a despeito de continuar se mantendo forte, acrescentará cada vez menos produção e recursos ao mundo.